Dicionário das Obras Básicas da
Cultura Ocidental

Antonio Paim

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Doutrina da virtude, de Kant

Além da Fundamentação da metafísica dos costumes (1785), Kant publicou ainda dois outros livros dedicados à moral: Crítica da razão prática (1788) e Doutrina da virtude (1797). A Crítica da razão prática atende tão somente  à intenção sistemática do autor, já que estava convencido devesse o sistema seguir-se ao conjunto das críticas. Não foi entretanto bem sucedido, sendo esta tarefa (de conceber um sistema de inspiração crítica, isto é, segundo a perspectiva transcendental) empreendida por seus sucessores. Deste modo, para perfeito entendimento da ética kantiana são suficientes a primeira e a última das obras antes referidas.

A Doutrina da virtude está dividida em duas grandes seções, sendo a primeira dedicada aos deveres para consigo mesmo e, a segunda, aos deveres para com os outros. Antes de apresentá-los estabelece esta distinção especial: a ética não dá as leis para as ações, pois esta é a esfera do direito, mas apenas para as máximas das ações. As máximas correspondem ao enunciado subjetivo que precede a ação concreta e a enuncia. Segundo estabelece a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, para averiguar se determinada máxima seria moral, basta enunciá-la de modo universal, isto é, estabelecer que todos os indivíduos poderiam agir da mesma maneira.

Desde Aristóteles, diversos autores seguiram a tradição, que inicia, de elaborar uma tábua de vícios e de virtudes. Na Época Moderna, assim procederam, entre outros, Hobbes e Espinosa. Entretanto, Kant distingue-se de todos os predecessores ao rejeitar a possibilidade de construir-se uma doutrina da virtude a partir dos sentimentos morais. Embora reconheça esta presença na moralidade, o que explica aquilo que seria o seu simples conhecimento racional, ao atestar a capacidade de todas as pessoas de emitir juízos morais. O conhecimento filosófico, entretanto, parte do reconhecimento de que o cumprimento da lei moral não tem em vista a conquista da felicidade mas impõe-se como puro respeito ao dever. Na visão kantiana, é a partir da consideração deste que se deve conceber a doutrina da virtude. Por isto, divide-a segundo o ordenamento racional dos deveres.

No exame dos deveres para consigo mesmo, Kant examina temas como o suicídio; o embrutecimento decorrente do uso imoderado dos prazeres sensíveis; a mentira e a avareza. No corolário desse exame recomenda à pessoa humana que procure conhecer-se a si mesmo como meio de busca eficaz da perfeição moral.

Guardam maior interesse os deveres para com os outros, tendo em vista a profundidade e a pertinácia de suas considerações sobre certos sentimentos sobre os quais valeria a pena debruçar-se.

As relações com os outros, segundo Kant, deveriam ser pautadas, antes de mais nada, pelas regras do amor. Embora não o explicite, trata-se do princípio cristão do amor do próximo. Este desdobra-se em beneficência (hábito de praticar o bem, que apresenta nestes termos: “ajudar, segundo os seus meios, sem nada esperar por isso, àqueles que estão na miséria, a reencontrar a felicidade”); reconhecimento (“honrar uma pessoa em razão de um benefício que se recebeu dela”) e simpatia. A meditação moral inglesa, contemporânea de Kant, desenvolveu grandemente o tema da simpatia, notadamente David Hume e Adam Smith, como sendo aquele sentimento que induziria as pessoas a cumprir a lei moral, a fim de merecê-la de seus concidadãos.
A tal conjunto de deveres opõem-se estes vícios: a inveja, a ingratidão e a alegria obtida pela infelicidade de outrem. A inveja é um sentimento mal são porquanto a destruição do objeto invejado em nada beneficia o invejoso. Afirma taxativamente que os vícios enumerados acham-se inscritos na natureza do homem.

Kant aborda ainda as virtudes que decorreriam do respeito que se deve dedicar aos outros (modéstia, moderação e reconhecimento de sua dignidade) a que se oporiam estes vícios: o orgulho, a maledicência e a zombaria.

Finalmente, Kant tece considerações sobre o significado da amizade. (Ver também KANT).

 

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